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ArtigoCiências Exatas e Tecnologias08/03/2026
Segundo a edição de 2025 do Digitalisation in Europe, dinamizado pelo Eurostat, em média, 44 % dos cidadãos da União Europeia (UE) têm falta de competências digitais básicas, definidas como a capacidade de realizar tarefas que envolvem literacia de informação e dados, comunicação digital, criação de conteúdos, segurança e resolução de problemas digitais. Este resultado é particularmente relevante quando comparado à percentagem que afirma utilizar a internet pelo menos uma vez por semana, cerca de 90%. A meta da UE para 2030 é que 80% dos adultos atinjam este patamar de literacia digital. Em Portugal, indicadores semelhantes referem que cerca de 56 % da população adulta detém competências digitais básicas, valor que coloca o país ligeiramente acima da média europeia.
Estes valores traduzem uma realidade em que uma parte significativa da população ainda não desenvolveu habilidades digitais básicas, que vão além do uso superficial de tecnologia. Ainda assim, quando se analisam estas competências numa perspetiva de género, o cenário revela nuances importantes. Na UE, os homens apresentam ligeiramente mais competências digitais básicas (62 %) do que as mulheres (59 %). No entanto, esta diferença varia significativamente entre gerações: nas faixas etárias mais jovens, entre os 16-24 e os 25-34 anos, as mulheres apresentam níveis de competências digitais básicas iguais ou superiores aos dos homens. A partir dos 45 anos, o padrão inverte-se e o diferencial volta a favorecer os homens, ampliando-se nas idades mais avançadas.
Esta evolução geracional sugere que as disparidades de género na esfera digital não são estáticas. Apesar de as mulheres mais jovens demonstrarem níveis elevados de literacia digital básica, essa vantagem não se traduz automaticamente numa presença equivalente nas áreas tecnológicas mais especializadas.
Quando a análise se foca nas competências digitais mais especializadas, constata-se que, apesar de ter sido registado um crescimento ao longo da última década, a participação feminina em funções tecnológicas avançadas, especialmente entre especialistas em Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), permanece reduzida. Na União Europeia, cerca de 17 %/19 % dos especialistas em TIC são mulheres, enquanto 81 % são homens. Em Portugal, esta percentagem situa-se ligeiramente acima da média europeia, em torno de 20,4 %. Isto demonstra que, embora os níveis gerais de literacia digital básica sejam comparáveis entre homens e mulheres, em particular nas faixas etárias mais jovens, a transição para funções tecnológicas de maior especialização e valor acrescentado ainda enfrenta barreiras significativas.
Segundo um artigo publicado em 2025 na revista científica “Social Psychology Education”, da editora Springer, estereótipos de género e normas culturais influenciam as escolhas profissionais desde a adolescência, condicionando interesses, perceções de competência e o valor percebido das carreiras tecnológicas. Mesmo quando meninas e jovens mulheres apresentam competências digitais equivalentes às dos rapazes, a perceção de que áreas como a tecnologia ou a engenharia são “para homens” afeta a sua confiança e motivação para prosseguir nesses percursos. Além disso, a ausência de modelos femininos visíveis e de apoio educativo estruturado reforça esta tendência, dificultando a entrada e progressão em funções tecnológicas de maior valor acrescentado. Estes fatores cumulativos contribuem para que a representação feminina em especializações tecnológicas permaneça inferior.
A sub‑representação das mulheres nas carreiras tecnológicas especializadas não afeta apenas a igualdade de género; tem também implicações importantes para a inovação, diversidade das perspetivas e desempenho económico do setor tecnológico. Dois relatórios da OCDE (OECD Digital Economy Outlook 2024 (Volume 2) e Gender Equality in a Changing World) chamam à atenção para esta problemática: a sub-representação de mulheres nestas áreas, apesar do crescimento global das profissões digitais, contribui para menos invenções, menos patentes e menos empresas tecnológicas lideradas por mulheres, o que reduz o potencial de diversidade e inovação no ecossistema digital. Segundo estas análises, a participação feminina tem ainda um grande potencial por explorar. Outro exemplo identificado são as start‑ups tecnológicas financiadas por capital de risco, nas quais a representação feminina é particularmente baixa - a sua maior inclusão poderia ampliar o impacto económico e inovador destes setores.
Organizações europeias como a European Innovation Council, que investigam a composição do setor tecnológico, também reforçam estes pontos. Equipas diversificadas tendem a obter melhores resultados e a criar soluções mais completas, porque combinam diferentes perspetivas e formas de resolver problemas, o que beneficia tanto a competitividade das empresas como a qualidade dos produtos desenvolvidos.
Deste ponto de vista, iniciativas que promovem a mentoria, o aumento de modelos de referência femininos em tecnologia e programas educativos focados em competências digitais desde a educação básica têm vindo a ser apontadas como estratégias capazes de diminuir a disparidade de género no setor. A nível europeu, projetos como o EMPOWER, financiado pelo programa Erasmus+, trabalham diretamente com escolas e educadores para combater preconceitos de género e aumentar a visibilidade de modelos femininos na tecnologia, oferecendo formação inclusiva e atividades inspiradoras para alunos e alunas desde cedo. Em paralelo, ações mais amplas, como a Women in Digital Declaration, promovem abordagens coordenadas entre Estados‑membros para melhorar a participação das mulheres no setor digital através de redes, eventos, intercâmbio de boas práticas e avaliações comparativas de progresso.
Portugal não é exceção, existindo igualmente iniciativas que visam criar mudanças estruturais e educativas. O Governo lançou o Programa Nacional de Raparigas nas STEM, uma estratégia que integra ações desde o ensino básico até ao ensino superior para atrair, reter e valorizar mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, com metas claras de aumentar a presença feminina entre especialistas em TIC até 2030 e com medidas que incluem mentoria, formação e visibilidade de modelos femininos. No âmbito do INCoDe.2030, foram promovidas ações como o programa "Engenheiras por um dia", destinadas a desconstruir estereótipos de género nas disciplinas tecnológicas desde cedo, reforçando o envolvimento de raparigas em experiências práticas e redes de apoio. Projetos impulsionados pelo Programa PESSOAS 2030 também têm aberto concursos e apoiado a criação de redes para promover a participação de raparigas e mulheres nas áreas STEM e TIC, mobilizando escolas, empresas e comunidades para acelerar a inclusão de género no ecossistema digital.
Estas políticas e iniciativas mostram que já existem estratégias estruturadas e colaborativas, tanto ao nível europeu como ao nacional, para transformar as oportunidades e reduzir desigualdades de género no setor tecnológico. A nível formativo, plataformas como a NAU têm contribuído para a literacia digital e a inclusão, reforçando o acesso de diferentes públicos a competências tecnológicas e experiências educativas relevantes.
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