Mais do que recursos, MOOC são oportunidades

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Quinta-feira, 15 Abril 2021

Nos dias que correm, arrisco a afirmar que das frases mais proferidas é “Fique em casa! Proteja-se a si e aos outros!”. E é com este mote que gerimos a nossa vida através dos nossos lares. Quais as consequências que advêm do cumprimento desta afirmação?

Pedro Cabral, Gestor da NAU

No que diz respeito ao ensino, apenas, muito do que tomávamos como garantido e pensávamos conhecer mudou. Cumpre saber de que forma poderemos tirar melhor partido com o que a pandemia nos ensinou…

Independentemente da forma como ensinamos, seja em modo presencial, online ou num regime misto, esta nova realidade, com a qual fomos forçados a viver, permitiu-nos ir em busca de soluções que nunca antes tínhamos procurado, nomeadamente os Recursos Educativos Abertos (REA).

A Educação Aberta passa por um movimento mundial, que como o próprio nome indica, tem como o principal objetivo abrir a educação de qualidade a todos. Tanto alunos/formandos como professores/educadores/tutores/formadores, em qualquer parte do mundo, têm tido acesso aos REA como a práticas de educação aberta. Desta forma, qualquer interessado pode aceder gratuitamente a educação atual, não estando limitado o acesso pelo local onde se encontra ou os recursos monetários que possui, podendo readaptá-la ao seu próprio contexto.

Consequentemente, consideramos que os MOOC (Massive Open Online Courses) se enquadram nos movimentos de Educação Aberta, podendo vir a ser usados, integralmente ou parcialmente, de modo a funcionar como propulsores de uma temática para mais tarde vir a ser discutida entre pares ou com o professor. É neste sentido que um MOOC passa a ser um REA, a partir do momento em que é reutilizado com um outro propósito diferente daquele que inicialmente foi concebido para.

Apesar desta grande vantagem, a questão que se levanta é se o MOOC apenas deverá ter valor enquanto recurso de aprendizagem para um contexto presencial ou se, por ele mesmo, pode ser uma oportunidade para incrementar a formação ao longo da vida. Se esta última hipótese for um caminho válido, então que essa função tenha reconhecimento pelos organismos de acreditação.

Em Portugal, tendo em consideração as características históricas, geográficas e principalmente sociais, temos de concordar que os MOOC poderão ser a opção mais rápida de concretizar a necessidade de a formação chegar a todos, se concertada com as demais medidas que têm vindo a ser implementadas. Tendo em consideração a necessidade que houve para apetrechar a casa dos portugueses e o número de dados que são usados nos smartphones nos últimos tempos, qualquer plataforma de cursos abertos online, seja em português ou noutras línguas, é um instrumento crítico para a aceleração da transformação digital.

Se houvesse dúvidas, basta olhar com atenção para o feedback dado pelos utilizadores de MOOC. Este não podia ser mais positivo. Destaco apenas alguns dos testemunhos recolhidos por estudantes da Universidade Técnica de Delft que frequentaram a oferta online: “o melhor é poder realizar o estudo ao meu próprio ritmo”; “é gratificante a possibilidade de ter cursos gratuitos promovidos por faculdades e professores conceituados”; “não é necessário deslocar-me para bibliotecas e existe um feedback quase instantâneo de professores e colegas”, entre muitos outros elogios feitos aos MOOC.

No entanto, os dados apontam que os MOOC falharam nesta questão de diminuir o intervalo entre países com taxas de desenvolvimento elevado e países com taxas de desenvolvimento mais baixo. Estas consequências devem-se ao facto de habitualmente os MOOC serem frequentados por pessoas com formação superior o que nos levaria a discutir se tal se prende com a literacia digital, tendo em conta que nos países com taxas mais baixas de desenvolvimento o acesso a internet e a computadores e dispositivos móveis é menor. Nestes países o uso de polos locais como bibliotecas, escolas ou outros espaços públicos, tem sido útil na operacionalização de estratégias que visam a promoção de literacia digital. Portugal incluiu medidas de combate a esta fragilidade num dos pilares de atuação do Plano de Ação para a Transição Digital do Governo, que vem dar ainda mais força ao trabalho já efetuado ao abrigo do INCoDe.2030.

Apesar de todas as críticas que os MOOC sofreram desde a sua existência, é inegável que acrescentam valor a quem participa destes cursos. Ainda têm espaço para melhorias e adaptações, afinal ainda não se encontrou nenhuma fórmula perfeita, mas é certamente uma possibilidade de educação para um país descentralizado, como é o caso de Portugal e que com ele existem diferentes qualidades e velocidades de ensino consoante o local onde os educandos se encontram e para combater esta disparidade: os MOOC tornam-se oportunidades de ouro para situações de exclusão social ou mesmo distância geográfica.