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ArtigoArtes e Cultura29/07/2026
Contar histórias faz parte da experiência humana desde muito antes da invenção da escrita, remontando à pré-história, com as pinturas rupestres. Ao longo dos séculos, as narrativas permitiram transmitir conhecimento, preservar tradições e reforçar a identidade das comunidades. Com o aparecimento da literatura, do teatro, da rádio, do cinema e, mais recentemente, das plataformas digitais, o storytelling foi-se adaptando aos novos meios sem perder a sua essência.
William Shakespeare é um dos exemplos mais marcantes desta capacidade de criar histórias intemporais. As suas obras exploram temas universais como o poder, a ambição, o amor e a justiça, recorrendo a estruturas narrativas que continuam a influenciar escritores, argumentistas e criadores de conteúdo. A própria Royal Shakespeare Company disponibiliza recursos educativos que demonstram como estas técnicas continuam relevantes para o ensino e para a escrita contemporânea.
No entanto, as redes sociais alteraram a forma como as histórias chegam ao público, em particular na comunicação digital. Plataformas como TikTok, Instagram ou YouTube Shorts popularizaram conteúdos mais curtos, obrigando criadores, marcas e instituições a comunicar de forma mais direta e objetiva.
Em detrimento desta evolução, decorrem, claro, novas necessidades em prol da adaptação. A UNESCO considera que a literacia mediática e informacional é uma competência essencial para interpretar, avaliar e criar conteúdos de forma crítica, num contexto em que qualquer pessoa pode ser simultaneamente consumidora e produtora de informação. O Plano Nacional para a Literacia Mediática 2025-2029 destaca igualmente esta premência para responder aos desafios do ecossistema digital.
Hoje o storytelling está presente muito para além da literatura ou do entretenimento. Independentemente da tecnologia utilizada, uma boa história continua a depender dos mesmos fundamentos base, entre eles a capacidade de organizar ideias, construir personagens credíveis e adaptar a mensagem ao público. Estas competências são hoje valorizadas em áreas tão diversas como a educação, a comunicação, o marketing, o jornalismo ou a criação de conteúdos digitais.
Empresas utilizam-no para comunicar a sua marca, professores recorrem a narrativas para facilitar a aprendizagem e organizações públicas procuram aproximar temas complexos dos cidadãos através de histórias mais claras e envolventes. Um estudo da Prezi citado pela Forbes aponta que mais de metade das pessoas afirma que uma boa história consegue captar e manter a sua atenção de forma mais eficaz do que a simples apresentação de dados ou factos isolados.
Esta eficácia não é apenas uma perceção subjetiva: tem uma base neurológica. Investigação em neurociência mostra que, quando ouvimos uma história, o nosso cérebro tende a sincronizar-se com o de quem a conta, um fenómeno designado por "acoplamento neuronal" (neural coupling). Estudos conduzidos por investigadores da Universidade de Princeton mostram que múltiplas áreas do cérebro são ativadas simultaneamente durante a criação e o processamento de uma narrativa, e que a expectativa em relação ao desfecho da história liberta dopamina, o que reforça a retenção e a precisão da memória. É precisamente esta mecânica que explica por que razão as informações organizadas em forma de história são mais memoráveis do que as mesmas informações apresentadas de forma fragmentada.
Este princípio aplica-se de forma muito prática à estrutura das narrativas. Uma das mais utilizadas, tanto em contexto pessoal como educativo, é a Jornada do Herói, um percurso que parte de um desafio ou obstáculo, passa por um ponto de viragem onde algo muda, uma nova perspetiva, um apoio inesperado, uma decisão, e termina numa lição ou aprendizagem. Como nota a plataforma EPALE, da Comissão Europeia, compreender esta estrutura ajuda não só a contar melhor as próprias histórias, como também a desenvolver empatia ao ouvir as dos outros, na medida em que nos coloca, ainda que momentaneamente, no lugar de quem narra. No plano educativo, esta lógica está na base de várias metodologias de digital storytelling, que combinam narrativa, imagem e som para tornar conceitos abstratos mais tangíveis. Em contexto empresarial, o mesmo princípio serve para transformar, por exemplo, dados áridos em argumentos com impacto.
A investigação publicada na revista científica ROTURA, Revista de Comunicação, Cultura e Artes mostra precisamente que o storytelling digital pode potenciar competências como a criatividade, a literacia digital e a comunicação em diferentes contextos de aprendizagem, confirmando, com base empírica, o que a neurociência e a prática pedagógica já sugeriam de forma mais intuitiva.
Do teatro de Shakespeare aos vídeos publicados diariamente nas redes sociais, o storytelling continua a evoluir ao ritmo da sociedade. Mudam as plataformas e os hábitos de consumo, mas permanece a mesma necessidade de criar histórias que informem, envolvam e deixem uma marca duradoura.
Estas ferramentas, da estrutura da Jornada do Herói à forma como se constrói uma personagem credível, podem ser aprendidas e aperfeiçoadas. É isso que propõe o curso online da Plataforma NAU “Técnicas de Escrita Criativa” do Instituto Politécnico de Tomar, onde os participantes exploram técnicas de construção narrativa, desenvolvimento de personagens e escrita para diferentes géneros e formatos. A formação é totalmente gratuita e tem uma duração estimada de 25 horas, podendo ser concluída ao ritmo do estudante. As inscrições estão abertas.
A NAU é cofinanciada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
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