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O estado do jornalismo em Portugal

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ArticleMarketing and Communication

05/03/2026

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No Dia da Liberdade de Impressa, olhamos para o estado do jornalismo em Portugal, através de alguns estudos que revelam quais os constrangimentos à profissão que se têm vindo a intensificar ao longo do tempo.

A liberdade de imprensa no nosso país continua a ocupar posições de destaque nos rankings internacionais: Portugal encontra-se em 8.º lugar entre 180 nações no índice de 2025 dos Repórteres Sem Fronteiras, com uma pontuação global de 84,26. Contudo, apesar deste retrato aparentemente positivo, os jornalistas sentem fragilidades que ameaçam o pleno exercício da sua atividade profissional. 

Estudos e dados reveladores de múltiplos eixos de preocupação 

Um estudo recente do Departamento de Ciências de Comunicação da Universidade do Minho, que inquiriu 100 jornalistas de vários órgãos e meios de comunicação nacionais, concluiu que os constrangimentos à liberdade de imprensa são hoje mais numerosos e mais intensos do que em 2015, data do seu primeiro levantamento.  No topo, surgem três grandes problemas: a crise financeira dos grupos de média, com 48 referências, a precariedade laboral, com 33 referências e a crise de identidade do jornalismo, com 27 referências. 

A crise financeira traduz-se, entre outras questões, em redações com menos profissionais, menor capacidade para coberturas no exterior e uma pressão constante para produzir cada vez mais e mais depressa. "Reconhecem que não há meios financeiros que lhes permitam fazer o jornalismo que querem", sintetiza Felisbela Lopes, Professora Catedrática do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho.  

A precariedade laboral, salários baixos, contratos instáveis e trabalho a recibos verdes representam o plano individual dessa crise mais vasta. Outro estudo, o “Inquérito Nacional às Condições de Vida e de Trabalho dos Jornalistas em Portugal”, ajuda a sustentar este ponto. Realizado pelo Sindicato dos Jornalistas (SJ), em parceria com a Casa da Imprensa e a Associação Portuguesa de Imprensa (API), entre 2022 e 2023, com mais de 800 inquiridos, permitiu identificar sobrecarga horária, conflitos éticos frequentes e sintomas de esgotamento profissional.

Já a crise de identidade revela-se uma novidade face a 2015: os jornalistas sentem que a profissão perdeu credibilidade junto do público e que o seu papel está cada vez mais confundido com o de influenciadores ou produtores de conteúdos presentes nas redes sociais. "O jornalismo era o quarto poder; estamos agora no polo oposto", afirma a investigadora.  

Felisbela Lopes defende que estes resultados fazem com que seja "urgente uma maior celeridade na concretização e expansão dos eixos 3 e 4 do Plano de Ação para os Média", lançado em 2024, que preveem apoio à sustentabilidade económica do setor e à valorização das condições laborais. "O modelo de negócio não serve. Nós já percebemos isso", sustenta. Um dado adicional sublinha a erosão do setor: entre os participantes do painel de 2015, 30 já não estão na profissão, a maioria não por reforma, mas porque decidiu mudar de área profissional. 

Pluralismo mediático e concentração de propriedade 

Analisando outro estudo, o Media Pluralism Monitor 2025, com dados de Portugal relativos a 2024, permite-nos um olhar relativamente ao pluralismo mediático e à concentração de propriedade. Para este ponto, Portugal é identificado como estando em risco médio (56–61%) nos indicadores de pluralidade de mercado e inclusão social, com tendência de agravamento. O subindicador "pluralidade de prestadores de media" atinge mesmo a faixa de risco muito elevado, devido à concentração de propriedade e ao peso das plataformas globais na distribuição de notícias.  A lei portuguesa impõe limites quantitativos claros à concentração apenas na rádio e na televisão; contudo, na imprensa e nos media digitais, o quadro é mais brando. 

Esta realidade tem consequências concretas no território. Todos estes desafios podem também contribuir para o fenómeno dos "desertos de notícias": comunidades, rurais ou urbanas, com acesso limitado a notícias e informação confiável. Segundo Pedro Jerónimo, Investigador Auxiliar no LabCom – Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior, "em Portugal, o cenário dos desertos de notícias é preocupante": mais de metade dos concelhos (53,9%) encontram-se em risco de se tornarem desertos de notícias, incluindo 54 concelhos em "deserto total", sem qualquer meio de comunicação. Nestas áreas, a dependência das redes sociais para aceder à informação local é elevada, tornando-as particularmente vulneráveis à desinformação, que facilmente prolifera na ausência de verificação profissional.  

Para uma lente mais abrangente, o relatório, MPM 2025, neste caso direcionado para os dados europeus,refere uma "batalha existencial" pela liberdade de imprensa e pluralismo na União Europeia, com concentração e interferência política a crescer em vários países. Ainda assim, o Conselho da Europa aponta Portugal como um dos Estados-membros onde foram feitas "reformas positivas".  

Formação para tempos de mudança 

Num contexto em que a profissão enfrenta desafios estruturais, que vão além dos anteriormente referidos, a formação assume particular relevância, quer para profissionais que trabalham na área quer para todos os restantes cidadãos. A Universidade da Beira Interior disponibiliza, na plataforma NAU, os cursos “Como entender a desinformação e fortalecer a cidadania” e “Como noticiar a desinformação e capacitar as audiências”, dirigidos a todos os interessados nestas matérias e a quem pretenda compreender melhor esta nova realidade. O primeiro curso centra-se no reforço da literacia mediática dos cidadãos, abordando formas de identificar conteúdos enganosos, compreender os riscos da viralização de informação falsa e aplicar técnicas básicas de verificação de factos no plano local, promovendo uma participação mais crítica e informada no espaço público. Já o segundo dirige-se sobretudo a profissionais e estudantes de jornalismo, incidindo sobre estratégias de deteção e cobertura da desinformação, metodologias de fact-checking, relação com as audiências e o potencial da inteligência artificial aplicada ao jornalismo local, com vista ao reforço da credibilidade informativa. 

Como entender a desinformação e fortalecer a cidadania

OrganizationUniversidade da Beira Interior
Course codeCEDFC
Course date Open for enrollment
The entire course can be completed without cost.

Como noticiar a desinformação e capacitar as audiências

OrganizationUniversidade da Beira Interior
Course codeCNDCA
Course date Open for enrollment
The entire course can be completed without cost.

A Plataforma NAU é cofinanciada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

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