09/21/2026
Apesar de separados por diferentes épocas literárias, Eça de Queirós e José Saramago partilham certas características: observar Portugal, interpretar as suas transformações e reinventar a língua portuguesa. É este património literário que dois cursos online da NAU convidam agora a conhecer.
“Eça de Queirós: romance e representação social” e “José Saramago: viagem, ficção, figuras” contam com a orientação científica do Professor Doutor Carlos Reis, Professor Catedrático na Universidade de Coimbra e especialista nas obras dos dois escritores. As formações foram desenvolvidas com a colaboração da Fundação Eça de Queiroz e da Fundação José Saramago.
Financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), os dois cursos integram o conjunto de cursos modelo da NAU, criados em parceria com especialistas e instituições de referência para contribuírem para a qualidade técnico-pedagógica da plataforma. Tal como acontece com os restantes cursos desta iniciativa, os conteúdos conciliam conhecimento especializado, produção multimédia e foco na experiência de aprendizagem.
A criação dos dois cursos teve pontos de partida diferentes. “O curso sobre José Saramago partiu de contactos da NAU, serviço digital da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), desenvolvido pela FCCN, com a Fundação José Saramago que, bem ou mal, entendeu desafiar-me a cumprir a tarefa. Um desafio que eu, evidentemente, não poderia ignorar”, explica Carlos Reis.
O desafio acabaria por abrir caminho a um segundo curso e o especialista propôs à NAU um novo projeto, desta vez dedicado a Eça de Queirós. “A tarefa saramaguiana era tão estimulante que eu achei que não deveria ignorar Eça. A Plataforma NAU, de novo, bem ou mal, aceitou a proposta e… fomos em frente.”
O curso “José Saramago: viagem, ficção, figuras” propõe uma viagem pelo universo literário do escritor, explorando as paisagens da sua ficção, as figuras que a habitam e os caminhos que ligam a vida à criação literária.
A formação está organizada em torno de três pilares. O primeiro, a viagem, surge como experiência de vida, origem de relatos e motivo de criação. Depois, a ficção permite percorrer alguns dos grandes títulos da produção saramaguiana. Por fim, as figuras conduzem à descoberta das personagens que permanecem no imaginário dos leitores.
Mais do que apresentar uma sucessão de obras, o curso procura mostrar as relações que se estabelecem entre vida, viagem, escrita e construção narrativa.
Em “Eça de Queirós: romance e representação social”, os participantes são convidados a conhecer alguns dos grandes romances do escritor e a explorar as personagens e os sentidos literários que neles se encontram.
O percurso acompanha atrajetória literária de Eça de Queirós desde a década de 1870 até ao final do século XIX. Ao longo da formação, são abordadas as mudanças verificadas nos movimentos e nas doutrinas literárias, na construção das personagens, nos diálogos entre diferentes artes e na representação dos principais temas da sociedade oitocentista.
O curso dedica particular atenção a três romances: O Crime do Padre Amaro, Os Maias e A Ilustre Casa de Ramires. A partir destas obras, os participantes podem aprofundar os grandes significados sociais da ficção queirosiana e compreender de que forma o escritor observou e representou a sociedade portuguesa.
Embora os dois cursos sigam um formato metodológico semelhante, as características de cada universo literário conduziram a opções visuais distintas. “O curso sobre Eça recorreu a mais imagens de exteriores, contando também com a espetacular paisagem do Douro, cenário d’A Cidade e as Serras”, salienta o especialista.
Para Carlos Reis, a importância de Eça de Queirós e José Saramago não decorre apenas da posição que ocupam no cânone. “São dois autores que continuam a interpelar-nos, como se estivessem vivos e ativos, coisa mais notável ainda quando se sabe que um deles morreu há mais de 100 anos.”
Através de diferentes estilos, contextos e formas narrativas, ambos escreveram sobre o país, as suas tensões e a evolução da sua identidade coletiva.
“Em Eça e em Saramago está escrito, por várias formas, o destino de Portugal, os seus traumas, as suas marcas identitárias, as suas e nossas mudanças”, afirma o especialista.
À capacidade de interpretar Portugal junta-se um trabalho profundamente inovador sobre a linguagem. “Ambos souberam, no seu tempo, reinventar a nossa língua literária, surpreendendo-nos até hoje.”
É esta combinação entre atualidade, profundidade crítica e inovação linguística que permite às suas obras atravessarem gerações e continuarem a conquistar novos leitores.
Carlos Reis salienta também o papel da Fundação Eça de Queirós e da Fundação José Saramago na concretização dos cursos. “Ambas foram decisivas para a dinamização e para a ‘conformação’ dos cursos, porque disponibilizaram materiais e facultaram o acesso a espaços. Foram agentes e parceiros privilegiados”, destaca.
A disponibilização de conteúdos em ambiente digital permite levar o conhecimento a públicos diversificados, incluindo pessoas que procuram uma primeira aproximação aos autores e leitores que desejam aprofundar conhecimentos já adquiridos. Ao transportar os universos de Eça de Queirós e José Saramago para um formato de curso online, a NAU contribui para tornar o conhecimento literário acessível a públicos mais amplos.
As expectativas do especialista passam, por isso, por uma adesão abrangente. “No imediato, as minhas expectativas são as de uma boa adesão por parte de um público-alvo relativamente indiferenciado. Os números mostram que isso está a ser cumprido, mesmo sabendo-se que as matérias facultadas ao dito público não são tão ‘generalistas’ como outras.”
Para Carlos Reis, a principal vantagem deste tipo de investimento na literacia cultural através da formação online pode resumir-se numa expressão: “democratização cultural”.
“Num tempo em que reiteradamente ouvimos falar em crise das Humanidades, o acesso à literatura em novos formatos e linguagens pode favorecer o acesso a textos e a mensagens cuja dimensão de legado patrimonial parece evidente”, remata o especialista.
A NAU é cofinanciada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Categories
InterviewAbout the courseCategories
NewsAbout the courseCategories
ArticleArts and Culture