12/05/2025
A Encyclopedia Britannica define o solo como “o meio poroso e biologicamente ativo que se desenvolveu na camada mais alta da crosta terrestre”. É organizado numa série de camadas, verticais e horizontais, apelidadas de perfil do solo, e cada uma delas recebe uma denominação relacionada com o seu papel na formação do mesmo.
A ciência que estuda este tão complexo conjunto de camadas é a pedologia (do grego pedon - solo + logia – estudo), instituída como disciplina científica por volta de 1880, por pioneiros como Vasily Dokuchaev, professor de Mineralogia e Geologia na Universidade de São Petersburgo, na Rússia. Foi também este naturalista que introduziu a ideia de que os solos eram resultado não apenas de fatores geológicos, mas também da interação destes com fatores biológicos, climáticos e topográficos ao longo do tempo. Dokuchaev estabeleceu ainda os princípios da classificação dos solos, descobriu as leis básicas que regem a distribuição e a origem de cada um e demonstrou que os organismos que vivem no solo integram-no e que, agindo sobre ele, moldam-no. Em Portugal, a pedologia chega mais tarde com Joaquim Vieira Botelho da Costa, professor no Instituto Superior de Agronomia, cujo livro Caracterização e Constituição do Solo, de 1953, é ainda hoje considerado uma referência a nível nacional.
O Dia Mundial dos Solos teve origem em 2002, quando a União Internacional de Ciências do Solo recomendou uma data para lembrar a importância dos solos. Com liderança da Tailândia e apoio da Parceria Global do Solo (GPS), um mecanismo criado em 2012 com a missão de posicionar os solos na Agenda Global e promover a gestão sustentável dos solos, a Organização para a Alimentação e Agricultara das Nações Unidas (FAO) formalizou a iniciativa global. Em 2013, a Conferência da FAO aprovou oficialmente a criação do dia, e a 68ª Assembleia Geral da ONU o reconheceu internacionalmente. A primeira celebração oficial ocorreu a 5 de dezembro de 2014. O objetivo central desta comemoração é destacar o papel fundamental dos solos para a agricultura, os ecossistemas e a segurança alimentar, tornando-se, desde então, uma plataforma mundial de sensibilização e ação promovida pela GPS.
Em 2025, a campanha destaca o papel dos solos nas cidades, alertando para a impermeabilização e urbanização crescente. O apelo é para que decisores políticos, cientistas, líderes municipais e a sociedade civil repensem os espaços urbanos, promovendo cidades verdes e sustentáveis.
Deixamos algumas curiosidades que ajudam a aprofundar o entendimento sobre a importância dos solos, partilhados pela FAO:
95% dos alimentos que consumimos dependem do solo;
33% dos solos do planeta já se encontram degradados;
A formação de apenas 2 a 3 centímetros de solo pode levar até mil anos;
15 dos 18 elementos químicos essenciais às plantas são fornecidos pelos solos;
Há mais organismos vivos numa colher de solo do que pessoas na Terra, sendo o lar de cerca de 59% de todas as espécies do planeta;
2 mil milhões de pessoas sofrem de carência de micronutrientes (“fome oculta”), um problema que poderia ser significativamente reduzido com gestão sustentável dos solos, permitindo produzir até 58% mais alimentos.
Mas tal como muitos outros elementos naturais que existem no nosso Planeta Terra, também os solos enfrentam os seus desafios. A sua degradação é considerada como uma das maiores ameaças aos ecossistemas terrestres e à sua funcionalidade.
Portugal não é exceção: a degradação dos solos afeta a capacidade do país de fornecer serviços essenciais, como a produção de alimentos, a retenção de água e o suporte à biodiversidade. Entre os principais processos de degradação identificados destacam-se a erosão, a compactação, a salinização e a impermeabilização. Segundo a Associação ZERO - Sistema Terrestre Sustentável, a erosão é provocada principalmente pela ação da água e do vento, muitas vezes agravada por práticas agrícolas inadequadas, removendo a camada superior do solo, essencial à fertilidade. A compactação, resultante da pressão de máquinas agrícolas ou da densidade populacional de gado, diminui a porosidade do solo, comprometendo a infiltração da água e a capacidade de captação de carbono. Já a salinização, mais frequente em zonas costeiras e áreas de regadio, acumula sais no solo, reduzindo a produtividade agrícola e afetando a vegetação natural.
A associação alerta ainda para o impacto crescente da urbanização e da impermeabilização do solo, fenómenos que comprometem funções ecológicas vitais. A construção de estradas, edifícios e outras infraestruturas impede a infiltração da água, aumenta o risco de cheias e reduz a capacidade do solo de armazenar carbono. Em zonas metropolitanas, como Lisboa e Porto, a proporção de solo selado pode atingir valores significativamente mais elevados do que no resto do território, acentuando a vulnerabilidade urbana.
Além disso, práticas agrícolas intensivas continuam a exercer pressão sobre os solos quando não são acompanhadas de estratégias de sustentabilidade. Segundo a ZERO, estas práticas aceleram a degradação do solo, através da perda de matéria orgânica e da exposição à erosão, e tornam os ecossistemas agrícolas mais vulneráveis às alterações climáticas. A preservação do solo exige, assim, uma abordagem integrada, que combine boas práticas agrícolas, ordenamento do território e políticas de proteção ambiental eficazes.
Para além de reconhecer a importância vital dos solos, é necessário que esse reconhecimento seja transformado em ações concretas em ambiente urbano – e já existem iniciativas que mostram o caminho nesse sentido. Em Portugal, o projeto UnSealingCities, liderado pela Direção‑Geral do Território, propõe um guia de boas práticas para combater a impermeabilização do solo urbano, de forma que as cidades se tornem mais resilientes às alterações climáticas. Reúne medidas concretas, desde políticas municipais até intervenções físicas, para reduzir impermeabilização dos solos, promover superfícies permeáveis e implementar soluções baseadas na natureza, como jardins de chuva ou telhados verdes. Além disso, o projeto pretende colaborar diretamente com municípios para “desselarem” zonas já impermeabilizadas, reforçando a resiliência face a cheias, ondas de calor e poluição.
Essas boas práticas não surgem isoladas. A nível europeu, a Agência Europeia do Ambiente (EEA) destaca que a impermeabilização dos solos é uma das maiores ameaças nas cidades, pois impede a infiltração da água, agrava cheias e intensifica as ilhas de calor. A Comissão Europeia, por sua vez, reconhece que a impermeabilização reduz drasticamente as funções ecológicas do solo, como a captura de carbono e a filtragem de água, e aponta para a necessidade de planeamento ordenado e soluções sustentáveis. Além disso, há avanços legislativos significativos: em 2025, o Conselho da União Europeia adotou novas regras para monitorar a saúde dos solos a nível europeu, incluindo o controlo da impermeabilização do solo (“soil sealing”) como critério central.
Acompanhar reuniões e projetos locais (ao nível do município onde vive, por exemplo), apresentando propostas e pressionando através da opinião pública para que medidas sejam adotadas: mais pavimentos permeáveis, parques urbanos, jardins de chuva e outras soluções verdes;
Participar em projetos comunitários de re-vegetação ou hortas urbanas e ações limpeza, contribuindo para restaurar solos selados;
Participar em ações de formação, como o workshop realizado em maio de 2025, com a Parceria Portuguesa para o Solo, onde foi apresentado o guia de boas práticas para travar essa impermeabilização e minimizar os seus impactos ecológicos.
Reduzir o uso de superfícies impermeáveis na sua própria casa, optando por manter zonas verdes, como blocos de relva ou pavimentos drenantes.
Ao adotar estas práticas, não estará apenas a tornar o espaço onde vive mais bonito e acolhedor; estará também a fortalecer o solo, a mitigar riscos climáticos e a preservar um recurso essencial para a vida.
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