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ArtigoFormação e EducaçãoCiências Exatas e Tecnologias24/03/2026
A literacia digital vai além da capacidade de usar ferramentas: inclui avaliar informação, gerir dados, proteger a privacidade e participar de forma crítica no ambiente digital.
Na prática, o quotidiano académico dos estudantes implicaria uma boa base de literacia digital, pela necessidade de combinar plataformas institucionais de aprendizagem (LMS), motores de pesquisa, redes sociais e ferramentas colaborativas, muitas vezes utilizadas de forma complementar para estudar, pesquisar, obter informação ou produzir trabalhos. No entanto, a investigação sugere que uma grande parte destas competências continua a ser desenvolvida informalmente, a partir da experiência pessoal com a tecnologia, pouco controlada ou direcionada e não necessariamente de formação estruturada no ensino. Uma realidade que, para além de suscitar preocupações entre educadores quanto à fiabilidade e à qualidade da aprendizagem a partir dessas ferramentas, também leva ao surgimento de hiatos entre a perceção de competência digital e a literacia digital efetiva.
Segundo o estudo Digital Literacy in Higher Education: Examining University Students’ Competence in Online Information Practices (2025), que avaliou o perfil de competências digitais de estudantes universitários com base no referencial Europeu DigComp, os jovens apresentam, em muitos casos, precisamente essa lacuna: apesar de terem uma elevada confiança no uso da internet, essa confiança nem sempre corresponde às competências reais. O estudo apresenta os resultados de um inquérito realizado a 200 estudantes, em que 90,5% afirmam sentir-se muito confiantes na sua capacidade de encontrar informação online; contudo, os testes práticos identificam fragilidades na avaliação da credibilidade das fontes, na filtragem de informação e na compreensão dos riscos associados à desinformação. O estudo aponta ainda para uma diferença relevante entre competências funcionais, como o ato de navegar na web ou usar redes sociais, e competências críticas, como interpretar conteúdos, verificar fontes ou compreender algoritmos e o seu comportamento.
Uma das tecnologias que mais vieram revolucionar de forma rápida e estruturante o ecossistema e o quotidiano académico foi a Inteligência Artificial (IA). Este universo de ferramentas generativas é hoje particularmente utilizado por muitos estudantes do ensino superior para pesquisar, esclarecer dúvidas, gerar ideias, estruturar e realizar trabalhos, integrando-se cada vez mais na sua rotina académica.
Analisando alguns números desta nova realidade, com base no relatório OECD Digital Education Outlook 2026, da Organisation for Economic Co-operation and Development, o uso de IA por estudantes universitários cresceu de forma significativa, particularmente, nos últimos dois anos. Um dos estudos citados no relatório mostra que, em França, a utilização destas ferramentas passou de 55% dos estudantes em 2023 para 82% em 2025. Já um inquérito realizado na Alemanha indica que 94% dos estudantes já utilizam IA, dos quais 65% fazem-no semanalmente ou diariamente.
Em Portugal, o uso de Inteligência Artificial também revela uma forte adesão entre os estudantes. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2025, cerca de 81,5% dos estudantes já utilizavam ferramentas de IA, valor claramente acima da média da população geral (38,7%), o que confirma uma adoção particularmente intensa nos contextos educativos. Entre os jovens dos 16 aos 24 anos, a taxa de utilização atinge os 76,5%, o que reforça a centralidade destas ferramentas nas práticas de aprendizagem contemporâneas.
Um outro estudo recente, do Higher Education Policy Institute (HEPI), do Reino Unido, indica que 92% dos estudantes utilizam IA para poupar tempo ou melhorar a qualidade do trabalho, mas apenas 36% afirmam ter recebido orientação formal sobre como utilizá-la no contexto académico, o que pode afetar fortemente o processo de aprendizagem efetivo (ainda que o resultado seja alcançado), levar a uma dependência excessiva, à utilização de informação pouco credível ou até a plágios.
É neste ponto que enquadramentos como o DigComp 3.0 – European Digital Competence Framework for Citizens ganham particular relevância, ao reforçar a necessidade de competências como a avaliação crítica da informação, a utilização e criação responsáveis de conteúdos digitais e a compreensão do impacto das tecnologias emergentes, tanto por parte dos estudantes como dos educadores.
Os estudantes enfrentam uma tensão entre a rapidez com que as tecnologias evoluem e a capacidade do sistema educativo de acompanhar essa evolução. Assim, acabam por se deparar, muitas vezes, com um ensino ainda bastante formal e enraizado em métodos tradicionais que não incorporam plenamente as novas exigências digitais.
Num inquérito da UNESCO apresentado em setembro de 2025 durante a UNESCO’s Digital Learning Week, revela que cerca de dois terços das universidades estão a desenvolver orientações sobre IA, embora apenas uma minoria disponha de políticas já consolidadas.
Além disso, um estudo recente da European Schoolnet, Well-being in digital environment in school, publicado em maio de 2025, destaca que ambientes digitais intensivos e não mediados podem afetar o bem‑estar dos estudantes, expondo-os a desafios variados, como o excesso de estímulos, stress, cyberbullying e dificuldades na gestão do tempo e concentração, que requerem orientação crítica e supervisão estruturada.
Outro ponto relevante é que, apesar dos avanços na transformação digital, a União Europeia continua a enfrentar lacunas significativas na infraestrutura de conectividade e nas competências digitais, refletidas em diferenças no acesso à Internet de alta qualidade e a dispositivos modernos. A Comissão Europeia evidencia que estas lacunas persistem, afetando especialmente estudantes de contextos socioeconómicos menos favorecidos. O Plano de Ação para a Educação Digital 2021‑2027 reforça que a falta de acesso adequado às tecnologias limita o desenvolvimento da literacia digital e contribui para desigualdades educativas.
O estudante de hoje combina autonomia digital e uso intensivo de tecnologia com a necessidade de desenvolver competências críticas e literacia digital. Plataformas como a NAU, através dos seus cursos online massivos e abertos, ajudam a reforçar estas competências e a apoiar o percurso de aprendizagem como complemento à formação académica regular.
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